3. BRASIL 7.11.12

1. CHANTAGEM NO PALCIO
2. HEGEMONIA NO!
3. A ILUSO DE UM PARASO
4. POR QUE COMEOU E ONDE VAI PARAR

1. CHANTAGEM NO PALCIO
O publicitrio Marcos Valrio afirma que o PT lhe pediu para conseguir dinheiro para calar um empresrio que ameaava envolver Lula no caso Celso Daniel. Ele disse no.
RODRIGO RANGEL

     O empresrio Marcos Valrio sempre se comportou como um arquivo vivo. Todas as vezes que enfrentava dificuldades financeiras, ameaava revelar os segredos que guardou do perodo em que era um dos homens mais influentes do governo Lula. Sempre que problemas cobriam o horizonte, ele o clareava lembrando os antigos camaradas das coisas que sabe e pode revelar. Nas circunstncias em que era tomado pelo medo de que algo lhe acontecesse, saber muitos segredos o tranquilizava. Agora, condenado a quarenta anos de priso por operar o maior esquema de corrupo da histria, o mensalo, o empresrio ameaa de novo contar o que sabe. Uma reportagem da ltima edio de VEJA mostrou que em setembro Valrio mandou um fax ao Supremo Tribunal Federal pedindo proteo de vida em troca de informaes. Ele tambm procurou o Ministrio Pblico citando trs personagens sobre os quais teria muito que dizer: o ex-presidente Lula, o ex-ministro Antonio Palocci e o ex-prefeito de Santo Andr (SP) Celso Daniel. Valrio diz ter muito a contar, inclusive sobre outros episdios que mancharam a reputao do PT e, assim como o mensalo, envolvem desvio de recursos pblicos e corrupo.
     Entre 2002 e 2005, quando explodiu o escndalo da compra de apoio no Congresso Nacional, Marcos Valrio participava de um restrito grupo encarregado de arrecadar dinheiro para financiar aes clandestinas do PT e de seus dirigentes. Segundo relato do prprio publicitrio, foi nessa condio que ele testemunhou uma cena de chantagem contra o ento presidente Lula e seu chefe de gabinete, o ministro Gilberto Carvalho. Os dois estavam sendo extorquidos por pessoas envolvidas no caso de corrupo e morte do ex-prefeito Celso Daniel, ocorrida em janeiro de 2002. Marcos Valrio afirma que foi chamado pelo PT para ajudar a resolver o problema. Era incio de 2003, nos primeiros meses do governo Lula. O empresrio contou que foi convocado para uma reunio com o ento secretrio-geral do PT, Silvio Pereira, e o empresrio Ronan Maria Pinto, apontado pelo Ministrio Pblico como integrante de um esquema de recolhimento de propina montado pelos petistas na prefeitura de Santo Andr. O empresrio Ronan Pinto, conta Valrio, ameaava envolver Lula e Gilberto Carvalho no episdio. O publicitrio relata como reagiu quando lhe pediram para levantar o dinheiro necessrio para apaziguar o empresrio. Eles achavam que (o pagamento) ia ser atravs de mim, e eu falei assim: Nisso a eu no me meto, no.
     Valrio no d mais detalhes, mas se mostra disposto a contar tudo o que sabe do caso  Justia. At hoje as circunstncias da morte de Celso Daniel so intrigantes. O prefeito foi sequestrado em 18 de janeiro de 2002. Dois dias depois, o corpo foi encontrado numa estrada em Juquitiba, municpio da Grande So Paulo. No momento em que foi sequestrado, Celso Daniel estava acompanhado do amigo e empresrio Srgio Gomes da Silva, o Sombra. A investigao policial concluiu que Celso Daniel foi mais uma vtima de crime comum. O Ministrio Pblico, porm, discordou dos policiais. Os promotores sustentam que o ex-prefeito de Santo Andr teria sido morto pelo grupo que se beneficiava de um esquema irregular de propina na prefeitura. Srgio Sombra teria armado a cena do crime. O amigo do prefeito integrava o esquema de corrupo junto com Ronan Maria Pinto, dono do maior jornal da cidade, de empresas de nibus e de uma empresa de coleta de lixo. Bruno Daniel, irmo do prefeito, disse s autoridades que o ex-chefe de gabinete de Lula e atual ministro da Secretaria-Geral da Presidncia, Gilberto Carvalho, conhecia bem o esquema de corrupo.
     Marcos Valrio afirma que, apesar do apelo que recebeu de Silvio Pereira, preferiu no participar da operao. Embora negue que tenha conseguido o dinheiro, Valrio diz que, no fim das contas, Ronan Pinto foi atendido. Ele garante que sabe quem pagou e, principalmente, como foi a guerra para acertar as contas com o empresrio. O pagamento, afirma, foi feito por um amigo pessoal de Lula. Envolve um banco que no faz parte do mensalo. Valrio diz que esse  apenas um pedacinho da histria. Os personagens da trama tm outros pontos de contato. Silvio Pereira, o petista que Marcos Valrio diz ter conduzido a negociao da chantagem, foi denunciado como integrante da cadeia de comando do mensalo, mas fez acordo com o Ministrio Pblico, prestou 750 horas de servios comunitrios e, com isso, se livrou de ser julgado pelo crime de formao de quadrilha. Silvinho, como  chamado pelos companheiros, era um dos encarregados de gerir a lista de indicados para cargos na mquina federal nos primeiros anos do governo Lula.
     Gilberto Carvalho, fiel escudeiro de Lula, era um dos mais poderosos secretrios da gesto de Celso Daniel. Ronan Pinto era da cozinha do PT. Para o Ministrio Pblico paulista, ele era um dos responsveis pela coleta de propina entre empresrios de Santo Andr e pela distribuio do dinheiro a pessoas do partido. Esse mesmo esquema, esquadrinhado na esteira das investigaes do assassinato de Celso Daniel, tambm promoveu desvios milionrios na prefeitura.
     Na semana passada, VEJA revelou que o Supremo Tribunal Federal recebeu um fax assinado por Marcelo Leonardo, advogado de Valrio, informando que o empresrio estava com a vida em risco e mencionando a lei da delao premiada, instrumento pelo qual criminosos podem ter a pena reduzida caso auxiliem as autoridades contando o que sabem. O presidente do tribunal, Ayres Britto, enviou o ofcio ao relator do processo do mensalo, ministro, Joaquim Barbosa. De pronto, os dois ministros suspeitaram que poderia se tratar de uma artimanha de Valrio para atrapalhar o julgamento. Ainda assim, e como havia meno a risco de morte, decidiram encaminhar o documento ao procurador-geral da Repblica, Roberto Gurgel. O contedo do fax est protegido por sigilo judicial.
     Naqueles mesmos dias, Marcos Valrio bateu  porta do procurador-geral. A um amigo, ele disse que viajou para Braslia em segredo e que entrou no prdio da Procuradoria pela garagem, sem se identificar. Relatou que disse ao procurador aquilo que vinha dizendo em privado j havia algum tempo: que tem revelaes importantes a fazer sobre o mensalo, inclusive sobre o verdadeiro papel do ento presidente Lula no esquema. Valrio diz ter como provar que Lula sabia de tudo. O empresrio conta, ainda, que pelo caixa do mensalo passaram 350 milhes de reais, muito mais do que o valor rastreado at agora pelos investigadores, e que figures do PT ligados ao ex-presidente Lula se revezavam na misso de mant-lo em silncio com a promessa de impunidade  o que no aconteceu.
     Na ltima quinta-feira, o jornal O Estado de S. Paulo noticiou que o encontro de Valrio com o procurador-geral da Repblica foi mais do que uma conversa preliminar de um condenado com o seu algoz na tentativa de negociar um acordo. Diz a reportagem que Valrio chegou a prestar um depoimento formal, devidamente assinado por ele e por seu advogado, em que fala de Lula, do ex-ministro Antonio Palocci e do caso Celso Daniel. Sobre Palocci, o publicitrio conta que o ex-ministro participava do esquema de arrecadao de fundos que abastecia os cofres do PT. Marcos Valrio tambm tem o que revelar sobre outro rumoroso escndalo do governo passado  os aloprados. Em setembro de 2006, militantes petistas foram presos em um hotel de So Paulo com 1,7 milho de reais. O dinheiro seria usado para comprar um falso dossi contra adversrios polticos do partido. Valrio garante que sabe o nome do empresrio que arrumou o dinheiro  um mistrio que at hoje a polcia no conseguiu desvendar.
     Em nota, o ministro Gilberto Carvalho informou que nunca teve conhecimento de qualquer ameaa ou chantagem feita por Ronan Maria Pinto, diretamente ou por terceiros. O Instituto Lula no quis se manifestar. Silvio Pereira no foi localizado. O procurador-geral da Repblica evitou falar sobre a conversa com Valrio, mas tem dito que s depois do julgamento do mensalo ele vai decidir se o que Valrio tem a dizer  suficiente para a abertura de um novo inqurito. O julgamento recomea nesta semana, com a definio das penas dos 25 rus condenados. Terminada a fase das penas, a chamada dosimetria, os ministros vo analisar os recursos dos advogados de defesa, redigir a deciso definitiva e, por fim, expedir os mandados de priso. Mesmo que acelerado, esse processo pode consumir pelo menos mais cinco meses de trabalho. Ou seja, os mensaleiros s comeariam a pagar suas penas em meados do prximo ano  um tempo longo demais, segundo alguns ministros, que vo adotar duas medidas de segurana para evitar fugas: o recolhimento do passaporte dos condenados e a obrigao de comparecer  Justia a cada quinze dias. At l, Valrio estar em liberdade e, como sempre afirma, temente pela sua sade e sua vida. 

COM REPORTAGEM DE ADRIANO CEOLIN E HUGO MARQUES


2. HEGEMONIA NO!
O PT cresceu nas urnas, elegeu o prefeito de So Paulo, seu principal triunfo, mas nem tudo saiu como planejado.
OTVIO CABRAL E DANIEL PEREIRA

     O ex-presidente Lula e o PT tinham objetivos bem definidos para a campanha municipal: fortalecer o partido e as legendas aliadas, esmagar a oposio e pavimentar o caminho para a reeleio da presidente Dilma Rousseff. Para isso, a retomada da prefeitura de So Paulo, perdida para o PSDB em 2004, era considerada essencial, porque garantiria o controle da maior cidade do pas e praticamente selaria a aposentadoria de Jos Serra, um dos principais lderes tucanos. No roteiro governista, a disputa pelas prefeituras serviria para consolidar o favoritismo petista na sucesso presidencial de 2014. Aparentemente, esse objetivo foi alcanado. O PT saiu das urnas como o partido que governar o maior nmero de brasileiros, e a oposio, embora tenha recuperado certa influencia no Norte e no Nordeste, foi derrotada nas maiores capitais do Sul e do Sudeste. A coroar essa campanha, o petista Fernando Haddad, ex-ministro da Educao, venceu a corrida pela prefeitura paulistana. Lula e Dilma, por tanto, s teriam motivos para comemorar, mas a reao do governo mostra que a vitria foi relativa. Em vez de discursos efusivos, cautela e preocupao. O motivo dessa ressaca tem nome e sobrenome: Eduardo Campos. Governador de Pernambuco e presidente do PSB, Eduardo viu seu partido sair das urnas como o que mais cresceu, elegendo 443 prefeitos. Embalado por vitrias do PSB em embates diretos contra nomes do PT apoiados por Lula e Dilma, como aconteceu no Recife e em Fortaleza, Eduardo se consolidou como concorrente  Presidncia em 2014. Trata-se de um possvel adversrio considerado desde j competitivo e capaz de levar a prxima eleio presidencial para o segundo turno, justamente o que Lula e Dilma querem evitar. No   toa que ele, a partir de agora, ser o principal alvo das atenes do Palcio do Planalto  e, se necessrio, da artilharia petista. Ns criamos um monstro. Eduardo Campos ganhou essa dimenso por culpa do PT e do governo, diz um ministro. Desde que assumiu a Presidncia, Lula fez de Eduardo Campos uma espcie de afilhado poltico dileto. Nomeou-o ministro. Depois, apoiou-o na vitoriosa campanha ao governo de Pernambuco, em 2006. No PT, era recorrente a verso de que ele jamais enfrentaria o padrinho numa disputa nacional. Essa verso j no existe mais, e o governo agora age para brecar o governador. Nesta semana, Dilma dever receb-lo no Palcio da Alvorada. A inteno da presidente  ter uma conversa franca com o ainda aliado, para que ele revele se pretende ou no concorrer  Presidncia.
     Eduardo dir que no  hora de discutir a sucesso, mas apenas projetos de interesse do pas, e que, por isso, continuar apoiando o governo. Dilma no romper com ele nem com o PSB, mas tambm no aumentar a participao dos socialistas no ministrio. No haver retaliao pblica, mas uma guerra fria de bastidores, destinada a asfixiar politicamente Eduardo e tir-lo do caminho do PT em 2014  exatamente como foi feito com Ciro Gomes, do PSB, em 2010. No ser uma luta de MMA, mas um jogo de esgrima. Cada golpe ser discreto, mas contundente, diz um auxiliar da presidente. Algumas medidas esto em estudo no governo para atingir o aliado-rival. A primeira  a aprovao do financiamento pblico de campanha, que repassaria a cada partido um valor proporcional  bancada eleita para a Cmara. Se esse mtodo for adotado, o consrcio PT-PMDB ficar com um caminho de dinheiro, enquanto o mdio PSB ter um oramento mais modesto. No entendimento do Planalto, isso desencorajaria uma aventura presidencial do governador. Outra estratgia  evitar que partidos que hoje esto na base do governo engrossem a campanha do PSB. Dois movimentos nesse sentido sero feitos pela presidente nesta semana.
     Dilma receber dirigentes do PMDB, a eterna noiva eleitoral, em jantar no Alvorada. A mesa, reforar o convite para que o vice Michel Temer permanea na chapa em 2014, apoiar peemedebistas para as presidncias da Cmara e do Senado e ofertar mais um ministrio ao partido. Ela tambm formalizar o ingresso do PSD, outro vencedor nas eleies municipais, no governo. O partido, que nasceu com a inteno de se fundir com o PSB, ser aquinhoado com um ministrio. Interlocutores de Eduardo dizem que essa reao no ser suficiente para tir-lo do jogo. A candidatura vai se tornar irreversvel. Ele vai ganhar mais se disputar e perder a eleio para presidente do que sendo eleito senador ou deputado, diz um dirigente do PSB. A sucesso presidencial de 2014 j comeou.

O PODER DOS PARTIDOS
Quantos eleitores e cidades esto sob o comando das principais siglas nos 85 maiores municpios do pas.

PT
NMERO DE MUNICPIOS: 2012  16; 2008  22
NMERO DE ELEITORES GOVERNADOS, EM MILHES: a partir de 2013  15,2; em 2008  9,6.

PSB
NMERO DE MUNICPIOS: 2012  11; 2008  5
NMERO DE ELEITORES GOVERNADOS, EM MILHES: a partir de 2013  7,7; em 2008  3,1.

PMDB
NMERO DE MUNICPIOS: 2012  10; 2008  19
NMERO DE ELEITORES GOVERNADOS, EM MILHES: a partir de 2013  7,4; em 2008  12,8.

PSDB
NMERO DE MUNICPIOS: 2012  15; 2008  13
NMERO DE ELEITORES GOVERNADOS, EM MILHES: a partir de 2013  6,4; em 2008  6.

PDT
NMERO DE MUNICPIOS: 2012  6; 2008  7
NMERO DE ELEITORES GOVERNADOS, EM MILHES: a partir de 2013  3,7; em 2008  2,8.

DEM
NMERO DE MUNICPIOS: 2012  5; 2008  5
NMERO DE ELEITORES GOVERNADOS, EM MILHES: a partir de 2013  3,1; em 2008  9,9.

PSD
NMERO DE MUNICPIOS: 2012  4; 2008  O partido foi criado em 2011
NMERO DE ELEITORES GOVERNADOS, EM MILHES: a partir de 2013  1,4; em 2008 .


3. A ILUSO DE UM PARASO
Na crise dos guaranis-caiovs de Mato Grosso do Sul esto envolvidos interesses da Funai, de antroplogos e de ONGs. Ningum se preocupa com o bem-estar dos prprios ndios.
LEONARDO COUTINHO

     O Tribunal Regional Federal da 3 Regio, em So Paulo, tomou uma deciso para abrandar um movimento sem precedentes de homens brancos em nome de um grupo indgena brasileiro. Acatando um pedido da Advocacia-Geral da Unio, o TRF determinou que os ndios guaranis-caiovs podem continuar ocupando as terras da Fazenda Cambar, no municpio de Iguatemi, em Mato Grosso do Sul. Em uma carta divulgada na internet no dia 10 do ms passado, membros do Conselho Indigenista Missionrio (Cimi) condenaram a ordem de despejo dada pela Justia Federal de Navira, em Mato Grosso do Sul, comparando-a a uma morte coletiva. Logo se espalhou pelas redes sociais a verso de que os ndios iriam cometer um ritualstico suicdio coletivo. Das redes, a solidariedade ganhou as ruas de diversas cidades, onde muitas brasileiras no perderam a chance de protestar de peito aberto diante das cmeras.
     O governo agiu rpido, pediu a suspenso da ordem de despejo e exigiu que a Fundao Nacional do ndio (Funai) conclua em um ms o laudo antropolgico que serviria como o primeiro passo para a demarcao oficial da terra reclamada pelo Cimi em nome dos ndios.
     Com o episdio, o Cimi conseguiu mais uma vez aproveitar a ignorncia das pessoas das grandes cidades sobre a realidade em Mato Grosso do Sul e, principalmente, sobre quais so as reais necessidades dos ndios. As terras indgenas j ocupam 13,2% da rea total do pas. Salvo raras excees, a demarcao de reservas no melhorou em nada a vida dos ndios. Em alguns casos, o resultado foi at pior. A 148 quilmetros da Fazenda Cambar, no municpio de Coronel Sapucaia, h uma reserva onde os caiovs dispem de confortos como escolas e postos de sade, mas no tm emprego, futuro nem esperana. Ficam entregues  dependncia total da Funai e do Cimi, sem a menor chance de sobrepujar sua trgica situao de silvcolas em um mundo tecnolgico e industrial. So comuns ali casos de depresso, uso de crack e abuso de lcool. A reserva Boqueiro, prximo a Dourados, abriga caiovs submetidos ao mesmo estado desesperador. Levantamento feito por agentes de sade locais revelou que 70% das famlias indgenas tm um ou mais membros viciados em crack. Infelizmente, a vida dos 170 caiovs acampados na fazenda em Iguatemi no melhorar com um simples decreto de demarcao, diz o antroplogo Edward Luz.
     Os caiovs formam o segundo grupo indgena mais populoso do Brasil, atrs apenas dos ticunas, do Amazonas. Segundo o IBGE, h 43.400 membros dessa etnia no pas. Outros 41.000 residem no Paraguai. Eles transitam livremente entre os dois pases, como parte de sua tradio nmade. Os antroplogos os convenceram de que o nascimento ou o sepultamento de um de seus membros em um pedao de terra que ocupem enquanto vagam pelo Brasil  o suficiente para considerarem toda a rea de sua propriedade. Com base nessa viso absurda, todo o sul de Mato Grosso do Sul teria de ser declarado rea indgena  e o resto do Brasil que reze para que os antroplogos no tenham planos de levar os caiovs para outros estados, pois em pouco tempo todo o territrio brasileiro poderia ser reclamado pelos tutores dos ndios.
     Em sua percepo medieval do mundo, os religiosos do Cimi alimentam a cabea dos ndios da regio com a ideia de que o objetivo deles  unir-se contra os brancos em uma grande nao guarani. Ocorre que o territrio dessa nao coincide com a zona mais produtiva do agronegcio em Mato Grosso do Sul. O Cimi e algumas ONGs orientam os ndios a invadir propriedades. A Funai tambm apoia o expansionismo selvagem. Os 170 caiovs acampados na Fazenda Cambar moravam em uma reserva situada do outro lado da margem do Rio Hovy. Em novembro do ano passado, membros dos cls Pyelito Kue e Mbarakay foram levados pelos religiosos e antroplogos a cruzar o rio e se estabelecer em uma rea de 2 hectares. O secretrio nacional de Articulao Social da Secretaria-Geral da Presidncia da Repblica, Paulo Maldos, visitou os caiovs em Iguatemi um dia antes e deu-lhes a garantia de que o governo federal zelaria pelos seus direitos. Ex-marido da presidente da Funai, Marta Azevedo, Maldos  um conhecido oportunista que no perde a chance de usar a desgraa alheia em favor de suas convices polticas. Alm de terra, queremos ter condies de plantar e trabalhar, mas isso nem a Funai nem ningum faz por ns, diz o cacique caiov Renato de Souza, da aldeia Jaguapiru, em Dourados. Enquanto os ndios tiverem a vida manipulada pelos medievalistas do Cimi, pelos idelogos da Funai e pelas ONGs, seu destino ser de sofrimento e penria.

UMA NAO GUARANI
Alguns antroplogos e indigenistas gostariam de transformar o sul do Mato Grosso do Sul em uma grande e nica reserva indgena. Trata-se justamente da rea mais produtiva do estado, sendo que ao norte j h extensas terras demarcadas para os ndios.
Nesta rea so produzidos:
60% da soja do estado = 4,3% da soja colhida no pas = 5 bilhes de reais.

COM REPORTAGEM DE KALLEO COURA


4. POR QUE COMEOU E ONDE VAI PARAR
O que est por trs da onda de assassinatos em So Paulo, que j vitimou 88 policiais.

     A guerra velada que estourou entre policiais e criminosos nas ltimas semanas em So Paulo tem origem em duas mudanas. A primeira foi a troca de comando na Secretaria de Segurana Pblica paulista, em maro de 2009. Ao assumir a pasta, o ex-promotor de Justia e ex-oficial da Polcia Militar Antonio Ferreira Pinto fez uma faxina na cpula da Polcia Civil, ento s voltas com escndalos de corrupo, e definiu o combate ao crime organizado como uma de suas prioridades. Para isso, integrou os vrios departamentos de inteligncia  o da polcia Civil, o da Militar e o da Secretaria de Administrao Penitenciria, que monitora os presos  e elegeu a Rota como a tropa que o ajudaria a efetivar seu plano. Grupo de elite da PM paulista, a Rota no tem uma regio de atuao especfica  ento, pode ser acionada para agir em determinado crime ou para executar operaes previamente planejadas. Sua primeira operao sob o comando de Ferreira Pinto, em abril de 2009, resultou na priso de dezoito bandidos da faco criminosa PCC. Assim como a escolha de Ferreira Pinto para o comando da secretaria, a unio de esforos entre as polcias foi uma mudana positiva  aumentou a eficincia da represso ao crime em geral e s aes do PCC em particular. Mas cobrou o seu preo.
     Da parte da Rota, houve comprovados abusos, como na operao feita em maio deste ano em uma favela na Zona Leste de So Paulo. Nela, um criminoso do PCC, j rendido, foi executado s margens da Rodovia Ayrton Senna, conforme investigao da polcia (os policiais acusados pelo crime esto presos). O episdio serviu de pretexto para que lideranas menores do PCC ordenassem a matana de policiais. Se for executado um (integrante do bando) ser executado 2 policial (sic), dizia um dos bilhetes vindos de criminosos que passaram a circular em favelas da Zona Sul de So Paulo. Numa delas, a de Paraispolis, a polcia encontrou na semana passada um conjunto de papis supostamente pertencentes ao PCC. Eles incluam uma lista com o nome e a rotina de quarenta policiais, provveis alvos do bando.
     At agora, as investigaes apontam que os maiores lderes do PCC, como o detento Marcos Willians Camacho, o Marcola, no tm envolvimento nos crimes. H tempos a faco criminosa deixou em segundo plano a prtica de extorquir presos para se dedicar  muito mais lucrativa atividade do trfico de drogas. Marcola e companhia sabem que o tumulto prejudica os negcios. E reside a a certeza de especialistas de que a onda de assassinatos de policiais est prestes a ceder. O PCC visa ao lucro. A guerra traz prejuzo. Sendo assim, em breve seus lderes devero ordenar um recuo. A polcia, mesmo tendo perdido 88 dos seus desde o incio do ano, no far o mesmo. 
LAURA DINIZ


